"O homem é uma cor-cínica primária e um cru-amarelo transparente movido pela indiferença e ganância..."
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Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Estilhaços!


I
A mão não detém a coragem,
mas manipula a velha saliência presa à garganta.
Sua ferrugem aleita o corpo,
arrenda chãos metálicos.
A despeito de a medonha incerteza
manter encarcerada o musgo-céu
(vírgula do sempre-sêmen entre cios e bueiros...),
é pelo esperma da luz que a certeza
santifica a carne,
oferta álibi a expiação,
encarrega-se de reeditar segredos;
inverter sentidos.

II
Se ainda lembro
dos anéis de saturno?
― Digo-vos que não!
Cá. Estorno o poema desprovido de palavras.
O ermo de mim foge de mãos vazias,
foge em catraias de dores...
Mas eis que a revelia de bússolas carnívoras,
eu me dou palidamente às ultimas lágrimas;
desapareço em inofensivas gotas.

III
O chão ainda (que) ressequido,
nutre os fragmentos de nós.
Dorme insensivelmente
onde as calçadas desalmam-se;
onde escorregam, enfim, as cascas tênues
dos pavores poéticos;
combustíveis de fina inflamação;
Óvnis de tempos distante
afastando-se dos homens.

IV
Vida! Vida!
Acendei um sol melhor que este.
Aos poetas dei outros ares de seres humanos;
indicai o que lhes sucederá no futuro,
a fim de saberem que sois como a deidade
da cálida estalagem de nós...
Um paraíso onde as orquídeas selvagens
aprendam a sonhar
e a roubar a primavera
que lhes couber.

© Benny Franklin
Fotografia: Maria Hernandez

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Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

O amor será sempre a lei que regerá a nossa esperança!



"A metáfora é a guardiã da realidade." Adélia Prado

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Desde que não faltem alimentos nas mesas vizinhas!
Desde que não existam crianças vivendo na lama!
Desde que o perdão não seja a bola da vez!
Desde que pululem auroras sobre todas as vinhas!

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Desde que a mansidão dos fracos
não se deixe moldar pela petulância dos fortes!
Desde que a ilusão dos ricos
não se transforme em desesperança aos pobres!
Desde que o coração humano faça brilhar na terra
a luz que abolirá a iniqüidade!
Desde que o homem ideal
não seja o super-homem irreal
de todos os ritos!

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Desde que o grão da vida não copule a amizade desdita!
Desde que as pessoas não se envergonhem das belas rosas do charco!
Desde que as orquídeas selvagens transcendam as flores da maldade!
Desde que o pão da vida não seja o pão da discórdia,
razão pelo qual o homem
ainda se rouba e se mata!

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Desde que o sol de Dezembro
seja bem maior que todas as nossas tristezas!
Desde que o céu de Belém
seja mais claro que todas as nossas incertezas!
Desde que a brancura da vida
seja a coroa da nossa eterna humildade!
Desde que o amor da roseira
seja bem maior que o amor em pedaços!

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Desde que a misericórdia divina
possa nos presentear a eterna felicidade
que ainda acreditamos existir...
Porque de agora em diante o amor será sempre a Lei
que regerá a nossa esperança!

Feliz Natal!
Feliz Ano Novo!

Feliz novo mundo!...
Feliz tudo!...
Feliz amizade! ...
Feliz agora!...
Salve a vindoura justiça!...
Salve a perfeita liberdade...
Salve o amor que nos une!...

© Benny Franklin

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Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Vertigem


A hora está marcada
– ou perto!
Um aviso de morte restringe os dedos
– quase meus.

Ao primeiro penhor de vida,
protejo a sentinela da tarde,
gozo ante a derradeira vertigem:
parida partida,
a ida-vinda
sem quilha!

Ai! Meu corpo,
qual bago murcho de açafrão,
há de explodir a ilúcida fresta
das estonteantes injustiças:

Mundos de ogivas
com seus desumanos poemas
estapearão os olhos da pedra desvirginada
e um gozoso tapume
de meia jarda
rebentará o luar de saliva,
o centeio
de quase véspera,
o olhar.

© Benny Franklin

Fotografia: "Just a Hand" gentilmente cedida por "NãoSouEuéaOutra" by Maria Hernandez, Lisboa/Portugal

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Terça-feira, Setembro 15, 2009

Urros de Solitárias Gargantas




(Para Ivan Cezar)

I
Desvestida
pelo beiço de rodagem,
tal como uma agonia nua de pêndulo em movimento,
fomes (ainda) brilharão no silêncio
(essa subterrânea utopia que nos chega de véspera)
rejeitarão urros de solitárias gargantas;
hão de ser súplicas de brisa-dor
que os esmolambes das tabernas,
ricas e enfloradas,
vomitarão aos alvoreceres
mais difusos.

II
Exceto implacáveis artilharias
que os tendões de quinas esfomeadas
iscarão a prumo,
os porões dos dias que me cegam
e os arrabaldes das guirlandas que me velam
e os ruídos dos tumores que me cercam
dar-se-ão ao betume das faces
(embaciadas e lésbicas)
como quem se entrega ao poema
pelas neblinas do retropasso,
como quem se joga ao orgasmo
dos arranha-céus andróginos
pelas genitálias dos pés de uvas
e ao ombro
onde a mão da noite
desvendou a salinidade
meta-morfoseada dos homens
as flores-pratas fundem-se em efusões de pegadas
e onde as incontáveis criaturas do sol
põem-se a cuidar da loucura
que os olhares
afundidos dos carnívoros cárceres
foram alastrando a quem foge no poema
ou sobrenada nos jasmins
sem paragens.

III
Oh, vento! Oh, moinho!
Sob os nossos pés
fundir-se-ão os montões de esmeraldas,
os ramos de nódoa se dissolverão
como o beijo perto da boca,
como a fetidez da aurora
que rola pela lágrima,
como nádegas mesmo se filamentos sem línguas,
como cócegas mesmo se pensamentos sem diques,
como álacres begônias em cachos desumanos,
como nuvens de revólveres
com roucas amnésias,
como estômagos mesmo se assassinos em série
que depositam jazidas de ironia
na cumeada das bocas.

© Benny Franklin

Fotografia by Galeria de Diegowarhol/Flickr/Creative Commons,
Upload feito em 6 de outubro de 2008.

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