(Para Ivan Cezar)
I
Desvestida
pelo beiço de rodagem,
tal como uma agonia nua de pêndulo em movimento,
fomes (ainda) brilharão no silêncio
(essa subterrânea utopia que nos chega de véspera)
rejeitarão urros de solitárias gargantas;
hão de ser súplicas de brisa-dor
que os esmolambes das tabernas,
ricas e enfloradas,
vomitarão aos alvoreceres
mais difusos.
II
Exceto implacáveis artilharias
que os tendões de quinas esfomeadas
iscarão a prumo,
os porões dos dias que me cegam
e os arrabaldes das guirlandas que me velam
e os ruídos dos tumores que me cercam
dar-se-ão ao betume das faces
(embaciadas e lésbicas)
como quem se entrega ao poema
pelas neblinas do retropasso,
como quem se joga ao orgasmo
dos arranha-céus andróginos
pelas genitálias dos pés de uvas
e ao ombro
onde a mão da noite
desvendou a salinidade
meta-morfoseada dos homens
as flores-pratas fundem-se em efusões de pegadas
e onde as incontáveis criaturas do sol
põem-se a cuidar da loucura
que os olhares
afundidos dos carnívoros cárceres
foram alastrando a quem foge no poema
ou sobrenada nos jasmins
sem paragens.
III
Oh, vento! Oh, moinho!
Sob os nossos pés
fundir-se-ão os montões de esmeraldas,
os ramos de nódoa se dissolverão
como o beijo perto da boca,
como a fetidez da aurora
que rola pela lágrima,
como nádegas mesmo se filamentos sem línguas,
como cócegas mesmo se pensamentos sem diques,
como álacres begônias em cachos desumanos,
como nuvens de revólveres
com roucas amnésias,
como estômagos mesmo se assassinos em série
que depositam jazidas de ironia
na cumeada das bocas.
© Benny Franklin
Fotografia by Galeria de Diegowarhol/Flickr/Creative Commons,
Upload feito em 6 de outubro de 2008.

















