sábado, fevereiro 26, 2011

Para além das miragens níveas

Benny Franklin & Alonso Rocha - Presidente da Academia Paraense de Letras
(Cerimônia de Premiação do II Prêmio AP de Literatura 2010)

(Em memória do Príncipe dos Poetas Paraenses)

"Ele era um pássaro, Senhor, cujas asas feriste antes do voo."
(Fragmentos do Poema Prece de Alonso Rocha)

I
Coice quase fêmeo
penalizando os lampiões de esquinas esmaltadas:
o palmo da flor
regurgita na aragem dos carvalhos.
Sobre a argila
multifacetada
e sonolenta,
o arco de pua,
o retropasso afeminado
e suas verborragias de lágrimas
― as ressentidas.

II
Nem armadilhas de caças,
nem trombas de algibeiras,
ou voo de cinzas;
nem a vergonha
com sua bacia de betumes,
nem a indigestão do caroço pêco,
nem as esmeraldas dos funerais
hão de erguer-se no altar dos lábios cerrados,
na confissão dos meus múltiplos segredos:
ignotas sendas dos orgasmos,
flamas feitas do varrido das tumbas.

III
Oh, vós que sois o encantamento das escumas pálido-róseas!
Improvável plagiar o fogo-fátuo regurgitado.
Quase nunca é preciso masturbar a língua adulterada.
Quase nunca é preciso vomitar
a agonia dos náufragos do rio que estua,
os venenos mórbidos dos marfins obtusos,
os fetos-machos das miragens níveas,
como tropa de escorpiões vorazes
sem piedade,
de prontidão,
entre a fronte fugidia e a folhagem do precipício,
com força de me atirar
no áureo estômago da espera.

IV
Oh, vós que sois o espelho da jugular arfada com valia!
Arriscado ser a branca-morte do quartzo
na sua campânula estigmatizada.
Para seduzir a violência do sândalo
talvez vos seja útil colorir
as orquídeas sobreordenadas dos poetas olvidados:
têmperas diáfanas com carmin gramatical,
e tentar perpetuar
os cachos-machos das rosáceas mirins,
como dálias de encantar serpente emplumada,
sobrestagna no bocal âmbar da rosa plástica.

V
Oh, vós que sois a estrela grafite
dos seres que desprezam a fúria do chicote!
Difícil enodoar
a noção do tempo-espaço.
Difícil suprimir as cicatrizes dos cânticos embriagados.
Difícil simular
a exclusividade da partida.


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2 comentários:

Centelha Luminosa disse...

Tudo quanto me ocorre nesse momento ao ler "Para além das Miragens Níveas", é do escorrer da mais pura poesia que tenho tido oportunidade de ler. E, me deliciar.
Aliás, teu blog inteiro, é uma emanação poética,sem igual!
Gostei de vir aqui.
Bjossssss Benny !!

Ana Maria disse...

Adoro ler seu blog...