domingo, setembro 24, 2006

Exame de Consciência


Prêmio AP de Literatura 2006

Para Gilberto Guimarães, Dedico.

I

Sob o signo da vida,
pedra quase bruta,
que me consome aos poucos,
copulam-me as bromélias silvestres,
remastigando o íntimo da palavra,
tão farta de cio.
Exame de consciência
que, à mercê das chuvas ácidas de longes terras,
quando se pode melhor divisar as coisas,
há que se fazer de espada,
mas sem dormir na bainha,
e, em meio às flores ensopadas de espermas,
deve saber devorar
centenas de ventres santarenos,
que tanto amo penetrá-los...
Ó areia de piracaia!...
Ó tira-gosto de avium!...
Que a chuva me conceda
uma primeira negação da fala.
Sentar-me-ei nestas calçadas baldias da vida
a colher da viva luz,
o que possível se amarelar nos frutos desmerecidos
desse amor que amo amar em pedaços...
Ó chão belemita!...
Ó grão paraora!...
Que os filamentos de tuas belíssimas pétalas
e de teus pusilânimes ovários,
conceda-me o dom de perfurar-te à bala,
com orgasmo de aço,
no qual algumas putas infelizes
prostram-se nas noites de sofreguidão.
Porquanto, bem sabe o sol que me queima n’alma,
que não chorarei o deslacrar-se
dos hímens complacentes das orquídeas selvagens.
Muito menos apagarei da sorte todas as imagens
que, porventura, se despirem nos vidros
da minha parca inspiração,
cuja flor-mulher que tanto amo mastigar,
não venha se sentir penetrada
por feitos desumanos.

II

Ó tímidas meretrizes!...
Ó cascas de mangas pecas!...
De que adianta
o brilho inusitado dos folkways amazônicos
se seu povo convive com a fome,
deixando marcas de sangue
em farpadas cercas estrangeiras?
Ó supina felicidade!...
Ó punhos de renda!...
Por que permitir
que o anda-já de garras e paixões
se liquefaça carcomido sob as derradeiras
volúpias do escrever?
Ó Alter-do-Chão!...
Ó amor perfeito!...
Por que permitir que os cânticos dos poetas
se derretam, indevidos,
no âmbito copular dos cachos de bananas nanicas
nos quais mocorongas moçoilas desvirginadas,
continuamente, se deixam penetrar
pelos gulosos talos do Benjamizeiro?...
Por despeito
de não compreender o medo de amar,
sou como a consciência das pedras solitárias,
que ouve no bocejar da fome,
o lamento dos tambores.
E, como guardiã da palavra, que é
fruto da vivencia diária do borbotar das emoções,
a labareda da fala
há que se afugentar dos maus poetas.
Mas, sem perpassar o chão da poesia,
a fim que se lance gozosa,
até às profundezas do empoeirado
oceano de lágrimas.

III

Vinde,
irmãos do sol e irmãs da lua.
Sentai comigo...
tentarei ser toda paciência
para entortar o aço da palavra
e todas as dores e espinhos
que prendem o reinventar do ser humano.
Vinde,
primos do sol e primos da lua.
Sentai comigo...
porque o amor inconsciente e inválido,
há que ser compelido a envenenar-me de véspera,
atrelando-me ao cortar da baioneta tibetana,
impelindo-me imensos flocos de almas famintas,
num espocar de corpos,
calafrios e desânimo,
que é este colar de madrepérolas,
conquistado às duras lágrimas talhadas,
ante o chicote coercivo
Da madrugada...
Aprendei também
que há egoísmo se o sexo for mal parido,
já que o meu prepúcio raivoso, sentindo fome de mel silvestre,
decerto, gozar-se-á a pleno gozo,
desdizendo do amor das enxurradas tsunâmicas,
do qual, o atritar com as palavras mórbidas e secas,
decaí indecoroso por cima desta vida ainda menina,
que ora sangra-se estricnina...
Ó luar de prata!...
Ó dia de cão!....
sabei que sou como o aroma do canivete.
E, assim sendo, apenas varão,
logo me ato em lânguidos cânticos de vida e corte,
na idéia firme de vencer a morte.
Rastro de fuzil americano
a lançar-me à alça de mira
do soldado judeu, que há que se enrolar
sob o véu da ferida,
cujo front dos gozares belemitas,
liga-se energizado às batalhas sangrentas deste poema,
ora abatido ora menstruado,
ponto de escape
que vai da saliência dos homens-poetas
até o alimentar-se de retretas,
barro e saliva!

IV

Nesse infinito augurar de palavras e tetas
Talvez, hoje, talvez, nunca mais,
a fomedez de justiça e cabaço
aceite se impregnar ao ardume e à canseira.
Nunca mais aceite descoçar-se das impinges e coceiras.
Nunca mais aceite induzir os pássaros de aço
a remover do olfato da maçã a ganância humana.
Nunca mais aceite engolir o desamor
que brota dos homens exatos,
nos quais o silêncio da vida,
a miséria do osso, não explica...
De vez que o amor,
emprenhado de dúvidas e ressentimentos,
deixou-se masturbar de tédio,
esguichando seu ávido sexo
em cima do Coreto da Praça da República,
Convexa, crua, ensolarada,
Pálida,
andrógina poesia nua!

V

Neste Sistema Solar,
que move a vergonha dos homens,
resta-me o som das palavras,
golpeando-se com pedaços de flores,
dizendo-me que é com o tesão do meu sexo
que se desamargura da dor imerecida...
Não faz muito,
pariu-se o sol sob o cio da terra...
Fosse-me esse cio réstia de luz
que se espraia pelo vento da praia.
Fosse-me essa fome européia
nunca vista na primavera.
Eu pintaria um breve espaço
entre o pensamento
e a ação...
Sabei,
ó Sumaumeira de Nazaré!...
Satisfaço-me, espiritualmente, quando bebo sexo
e, também, quando me alimento
de poesia sem eternidade,
pois, que como sêmen de limão
(enjoativo e transgênico),
O dia que amo anoitecer,
há que se tornar sonho pejorativo,
cartazia de agonia,
ato de expiação,
espada que fere o mundo,
num gesto que gera-nos
somente dor
e aflição!

VI

Da paixão
(bem sabe o dia!... à noite também!),
provém-me o verbo da paixão que tanto degelo,
quando deixo enforcar-me pela ferida do cotovelo,
pois, o desejo de não me curar,
há que se suicidar no ventre da poesia,
feito mel
de mênstruo copular silvestre,
feito essa desmedida dor
que cobre a Cidade de Belém...
Sim!
colherei essa paixão
que há de cobrir de castigo,
as pencas de mangas verdes penetradas
que estão caídas no ato
de espreitar o orvalho da manhã...
Sim!
não pensarei não nessa mansidão
que está às avessas,
da minha timidez mal parida,
cujo âmago que emperra este poema iletrado,
Quererá ser um verdadeiro mangal
carregado de frutos e sentimentos.
Pensarei sim, naquela que gerar, pela orquídea selvagem,
uma declaração de amor,
que imerecido ofereço a esta tarde rediviva
de tragos não explícitos,
mas que se morrem diariamente de tétano,
quando a flor se apodrece merecida
no íntimo da chuva.

VII

Lá muito longe,
os nossos mortos/vivos
caminham apressados para o tempo da eternidade.
Zombam-nos!... E pedem-nos socorro!...
Também implora-nos restos de comidas!...
Pois, que estando eles
prostrados à frente do purgatório do verbo,
não há como a ferrugem vomitar prisões e palavras
no clitóris da fala...,
pois, que estando eles
prostrados à frente do hímen da gala,
não há como a solidão
costurar o pênis deste esbaforido poema,
no qual as explícitas volúpias penitentes
e o fogo da ânsia de viver
não ousa destruí-los.

VIII

Não!
Não dormirei sob o ridículo da fala...
Vinde... Sou poeta...
Condenado que estou a tornar-me pateta
e a ficar preso por cem dias
no colo da solidão dos náufragos,
descomendo pão,
desbebendo água,
condenado a suportar
cem chibatadas nas costas.
Condenado a maldizer
os paus-de-arara da agonia,
de onde amorosas alfinetadas
meu poema sujo
gala o ar,
fere o céu,
pressentido a morte do aurorar amazônico.
Qual anjo torto traindo a manhã,
dessas coisas não muito raras e plurais,
vez que há lá fora
mundos inteiros
enforcando-se de fome e desmando.
Há, lá fora, bocas e estrumes,
paus e bandeiras de poetas sórdidos,
construindo pencas de poemas corruptos,
apáticos, desprezíveis,
tal como os seres inferiores,
vis.

IX

Talvez já nem mais sejas...
Estejas... Só... Vegetas...
Teimoso rendez-vous da palavra
que te mormaça os dias,
tão despedaçados de angústia,
tão mais carente de flor socialista.
Talvez já nem mais sejas...
Sobrevivas... Só... Vomitas.
Miseráveis casebres,
cujas feições multifacetadas da carne de anta
morrem no âmago do vôo do inseto,
vestido de barba e farda de general
a fuzilar em riste,
padres e sacristias,
Pois, as nossas amarguras
são como os gomos da laranja,
tombados bêbados de fome
como tombados estão os nossos poetas paroaras,
que não podem escarrar seus gozarares e urros
no cancro da cidade...

X

Nessa assexuada manhã de inverno
sou como uma fumaça lenta,
vagando sem rumo...
E, como lenta fumaça que passa,
não hei de catar na palavra
Somente o que há no espaço lúcido do nada.
Também não engolirei réstia de luz,
muito menos hei de coar o fel do cansaço,
ou amordaçar-me na inércia
de morrer ante a morbidez do mormaço,
já que desde menino
eu me afasto do amargo da poesia,
em cujo sangramento
este poema sujo,
presta-se a negritar-se no asfalto...,
Pois, quando a noite se puser,
que eu possa preparar a massa de pastel de amianto.
Que eu possa fritá-lo em óleo de soja saturado,
que eu possa despencar-me às nádegas do planeta,
que eu possa ser o amor das margaridas despetaladas,
em cuja dor de cólera e sanguessuga
a vida põe-se a moer
O saracotear-se dos ratos d’água
Que, diariamente, assexuam-se entre si
ante a bulimia fecal
dos nossos sobressaltos.

XI

Contemplando as estrelas mastigadas,
teimo em dizer-te
que eu não beberei o teu repreender.
Que eu não andarei de carro de mão,
porque içado à descarga do vento,
repararei o rascunhar dalguns parcos poemas,
aos quais, por ironia do talonário bancário,
fez-me permanecer encaixado
aos calotes da vida.
Porque sou como as folhas do ipêzeiro,
que lutam para não cair no abismo da sorte
E, mesmo sendo resto de encanto e magia,
sou como a face da lua,
desfazendo-se dessa falta de ar
que reina sob a vida sul-americana...,
sobretudo, porque
cabe á morte execrar o brocardo popular,
quando diz que a lamina poética da fala
infecta-se na lama da gala
e, que de tanto sofrer,
mostra-se depauperada por falta de amor e meiguice.
Ou, mais que isso,
vale viver a vida,
na qual uma mira de revólver explode-se ao vento,
já que se oferece como águia de fogo e fome,
já que se oferece como um anelar-se sem nome,
de céu insosso e cinzento
a miar-nos restos de pão e justiça.

XII

Vinde,
irmãos do sol e primos da lua.
Sentai comigo...
Escutai...
Não fosse a tosse da vagina,
nenhum revés meu íntimo alcançaria,
porque vivo como palito nu
que, em prantos, fere o dente,
e, mastigando a vida,
se gala de espanto,
num encanto que engorda o bolso vazio da vertigem,
desbanca a bainha verde da sorte,
às do nada sem nada,
que asperamente espero
Descolar-me da cicuta da morte,
poetando calado,
um átomo acalanto...
Lá fora,
a noite tenta achegar-se a mim
como um coito vaginal
que se achega na exploração sexual do sereno.
Lá fora,
a noite tenta se esconder em mim
como um monte de estômagos ressequidos
que se esconde em copos de leite e cigarro,
tal como os urros e sussurros das meretrizes
do Bar do Parque,
pedindo-me paga!

XIII

Vinde,
filhos do sol e cunhados da lua.
Sentai comigo...
Escutai...
Não fugirei da coragem,
muito menos fugirei do poema
que me despreza,
pois, que como mediano poeta,
sou mata virgem que cobre a vida.
Sou como uma simples explosão
provinda do sobrecu da palavra.
Sou como o medo da existência,
daquele que vê o abismo desprezando a corda.
Daquele que caça a herança rebentando elos perdidos,
cuja dor que vive repleta de falos semi-eretos,
costuma sempre catar nos dedos das prostitutas
as migalhas da poesia...
Sou, por fim,
sou como
as manhãs sem orvalho,
que tristes caminham sem burburinho.
Sou como
as lâminas de barro
que, afoitas, não vertem lágrimas,
transcendem do coito,
a sinceridade do gozo,
o chão!

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15 comentários:

Anônimo disse...

Ah! Que bom teres reaparecido com casa nova.

Dou-te um abraço

Luiz Alberto Machado disse...

Cada vez melhor seu espaço, meu amigo. Parabens, estarei indicando nas minhas páginas.
Abração
www.luizalbertomachado.com.br

Anônimo disse...

TÁ BOM.

Merivaldo Pinheiro disse...

Benny, "Exame de Consciência" é um retrato de ode bela e firme. Traduz um pulsar lírico de fome e avidez; expurgo. Porque carrega o sentimento do que corrói a alma não só poeta, mas também do homem, do ser humano.

Parabéns,

Merivaldo.

moca disse...

de tirar o fôlego.
fortes palavras.

Luzzsh disse...

Oi Benny,

Uau!.....

Belíssimo!

Volto.

Beijos.

Rayanne disse...

As palavras chocaram-se com o estômago aflito, a ausência de pegadas, o cristal ressecado sobre a pele àspera de insônia...latindo a volúpia e o prazer de se sentirem lançadas.

**Estrelas**

Paulo Vigu disse...

Casa nova e essas palavras, as quais posso lhe dizer, de forte alicerce poético a molhar minha garganta deveras sêca. Riodaqui / abraço poético / Paulo Vigu

Nathali disse...


Continue poeta.. continue a brilhar..
parabéns!

Um super beijo e votos de muita saúde (prá dar e vender..;)) e amor por todos os lados..

Neto Negreiros disse...

Que na coinsciente loucura de sua mente, brote sempre mais poesia, para que os leigos admiradores de seus pensamentos, possam cada vez mais ingerir o melhor da literatura bennyana, estando ou não em pleno gozo de suas faculdades mentais, pois isso é o que menos importa, já que a perfeição invade cada vez mais seu cérebro e deixam seus dedos cada vez mais esfomeados de teclas. Abraços, meu grande amigo!

cintia venceu o amor disse...

Benny

Maravilhoso Lugar do Reino
Bennyano, palavras de consciencia e emoção. Haverá de vencer sempre, pois o AMOR VENCE e VENCE O AMOR.Sou tua tiete incontestável.

Perfume das blues gardênias para perfumar o Amor E Paz do Mundo Bennyano
Um besito daqui e gracias pelo comentario...rs

Cintia Teixeira Pinto

Ghiza Rocha disse...

Nossa eu te achei hoje! Eu tinha perdido muitos links num pau que deu aqui no meu computador e cheguei pelo visto em momento inspirado!!! Vc conhece tbm o Antonio Rosa! Legal! Estou no projeto dele "O que é o amor", depois visite tem link çá no blog dele...

Aldo Marques disse...

Benny, quero conhecer suas outras manias, além de escrever poesias que são verdadeiros livros. Você escreve também revistinhas em quadrinhos para os não iniciados? Risos.

Anônimo disse...

Parabéns poeta, pela sua sensibilidade e magnífica arte com as palvras!As suas obras são um enriquecimento para quem as lê! Muito sucesso!
Nita Ferreira

Euna Britto de Oliveira disse...

Querido Benny, acabo de ler este seu poema - Exame de Consciência.
Simplesmente MA/RA/VI/LHO/SO!!!...
Eu queria que ele não acabasse mais, Benny!
Que força, que fôlego, quanta inspiração!...
Se este poema fosse gente, certamente conseguiria atravessar o rio Amazonas a nado!
O seu poema é amazônico, Benny.
Vasto, belo, tem força selvagem,
está aí para ser desbravado!... Você, Bandeirante da Palavra, puxa a gente, com facão na mão, para cortar os matos que obstruem a passagem nessa viagem pelos labirintos do ser pessoa!
Parabéns!
Meu respeito, minha admiração, meu olhar de aprendiz...

Uma curiosidade: Você deixou o Recanto das Letras? Não o vejo mais lá...

Um pequeno comentário: Só hoje caiu a ficha! Chopps Bennyanos - Bennyanos - por causa de Benny...
Elementar, mas realmente só hoje percebi a razão do nome, que ficou lindo, tanto quanto o site!
Muito bem feito e bem elaborado!
Parabéns!
Adicionei-o a meus favoritos e vou linkar você com este endereço, também!

Um beijo em seu coração, aninhado entre as orquídeas silvestres!...
Euna