sexta-feira, outubro 31, 2008

Móbiles em chamas!



Para Ricardo Mansur: um corpo irreal inferido pela realidade objetiva.

I
Oh!, Fina flor de sexo amamãezado!
O que é que sangra nos corpos continentais
covardemente justapostos
— ali onde a fúria da genitália solúvel se deixa entornar;
— ali onde a saliência de Vênus se deixa penetrar
pelo instante que remete um tênue canto à inexatidão das órbitas;
— ali onde os alto-falantes de carnes anêmicas
dizem tudo para quem nem mesmo
sabe de quê se valha?
Aqui, eu lamento a hora de não resistir.
Aqui, bebo o que reflui das seivas perpendiculares,
dos fogos e gemidos.
Aqui, aprendo a cada suspirar que barro e sapato
transformados em caligrafias esculpidas sob os pés da consciência
alimentam parábolas desvirginadas e cânticos mofados.
Aqui, à Vida, o que vibra nos móbiles em chamas.
Ao amor,
todas as gérberas circunspectas.
Porque é o amor, a exuberância do silêncio obsequioso.
Porque é o silêncio, a insalubridade dos testículos encabulados.
Fazendo isso, rejeito as vestes do instante,
e não apenas seduzo o grito, mas também abençoo a crua realidade sado-fixada
no bíceps da paixão.
Aqui, choco meu soluçar
no desprezo ovulado da ferrugem e renego a ser pranto
à mercê da loucura
— e não fico corado até que ovário da flor
seja a um só sopro perfume incipiente
de mormaço atroz.
II
Delirando, aprendo, a cada soslaio,
que o nu da beleza frequenta a sacristia do verbo;
e ai toma jeito de Deus, incita o orvalho a beber vertigem
e entorna um cadinho de gloria,
de modo que seja orgasmo e prolifere como gordura
que nutre as manhas e manhãs de tempos oprimidos,
e se excite com o eterno sussurrar das mãos.
Oh, Altar em pranto!
Sossega sobre mim teus ardumes de vidro,
afasta-me do perigo.
Aqui, a pureza do corte já não é essencial
exceto o grunhir que impera nas favelas.
aqui, minuto a minuto, o gôzo da esquina
gala uma tênue cerração de morte,
um segredo, um cobertor e um frio;
vomita um quase poema [âmago sem partida],
e dá uma volta sobre a esfera.
III
Fiz minha página
Aqui. Elegi assustá-la com o medo
e as frias eloquencias dos torpes amplexos.
Aqui, escolhi desfolhar a masturbação e o glamour
das mangueiras multifacetadas.
Aqui, os flancos das bocas anarquizadas
jazendo que nem tez de saliva esteticamente encarcerada.
Aqui, a tortura sem prisioneiro.
Aqui, perímetro nenhum está autorizado a proteger
os beijos de traição.
Aqui, pluma nenhuma está vestiria de cata-vento
e definitivamente não está autorizada a pousar
no óvulo injustiçado.
Aqui, o barro e o sapato
estão cheios de silêncio por dentro
como se fossem excrementos de dois velhos verdugos
pondo fim a tudo.
Aqui, o ato da mana morte
purifica seus mortos redivivos
como se as tumbas velassem o vazio
que nem fomes não identificadas.
Aqui, de joelhos, e silenciosamente,
luta-se contra os cinzéis do tempo
para alimentar, eternamente alimentar,
os lutos misericordiosos.
IV
De viés, mas fotografando musculosos olhares,
eu escolhi encher os meus ouvidos de lubricidade.
Na minha página,
um poema atira-se à luz,
vive o sintoma do seu tempo.
E mais que um extraterreno fora de órbita,
eu envelheço ungido e desvivido.
Aqui, nidificado, comparo-me a um corcel metafísico:
sou fruto de ejaculação de palavras mediunicamente embevecidas,
um mamar e babar de seios.
Aqui, necrosado, renovo-me em cada candeeiros de coitos
que gemem de armas em punhos.
V
Aqui, sarcasticamente,
eu sorrio da aurora com desdém.
Oh, poema!
Tu sabes porquê!

© Benny Franklin
Foto: Daniel Kongos
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quarta-feira, outubro 22, 2008

As verborragias fogem para boca!


I
Atropelo esse mundo sem glúteo
e um aguaceiro de carne
me rouba a palavra
e me arranca do cérebro a placenta do olhar,
é como a minha sânie de escrever,
que me expulsa do divã,
me subjuga, me humilha, me impõe o trajeto
da fuga e depois se esconde...

Mas.... será o verdadeiro diamante
composto do mesmo atoleiro,
da mesma geografia dos rostos
e do mesmo prazer?

II
Azedado
o poeta se desfaz do sexo das raparigas,
mistura a sua dor com o éter das madrugadas
e se entretém com o amarelecer dos cínicos frutos
para que não aconteça dos outros domingos
amanhecerem sem o cântico das cordilheirass...

Mas... estarão as outras segundas-feiras
a espera do embebedar dos deslembrados,
do fiapo do descanso
e a procura do soluço das cadeias?

III
As verborragias fogem para boca.
O vácuo as persegue.
Nem os prantos
irrequietos das lâminas obesas
quando alagam o mistério da sedução
conseguem engordurar a língua sitiada,
pois metáforas são e já não agradam
os elos da paixão.

IV
Solidão! Solidão!
Cede-me a tua camuflagem.
Desejo quebrar a algema da gaveta,
aguar nos olhos o ébano estrelado
e antes que o armagedom se aproxime do poema
salvemos as virgulas, as frases, entrerisos, retropassos..
Quem sabe assim apareça um porto de mel
onde possamos atracar o exame de consciência
que em pedaços se decompõe
no ácido da primavera
que conduzimos no bolso.

V
Oh! Fulgido clarão!
Perdera-se do luar o aperto de mão,
em coito sideral, recorrente,
voraz e impetuoso,
como uma eterna ejaculação,
suspensa na parreira...
Fugira-se pela garganta endêmica e pressurosa,
espraiando pelo pensamento
um poema inebriante
como imo de pênis ou fragrância de vagina!

VI
Ai! Poema!
Venero-te porque tua boca
sabe gritar rebeldia.

© Benny Franklin

Foto: Maria Hernandez

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terça-feira, outubro 14, 2008

Lágrimas de sempre-Viva



Para Lailton Araújo

I
Poesia, oh! poesia...
Apesar de ainda nos encontrarmos
nas cavernas dos primeiros vômitos
comemos do mesmo húmus
e bebemos angústias e esbofeteadas
da mesma lúgubre taça,
argh!, somos vítimas da podridão
que nos ignora
em torpe rodagem.

II
Poesia, oh! poesia...
O futuro desenha o poeta do meio
e as flores galam aqui o que a palavra
insemina com canivetes nos olhos,
línguas de genitálias ao vento
poetam por onde se esconde o orvalho
e invadem a lauda grávida
nuas e descalças.

III
Poesia, oh! poesia...
Os poetas nossos de cada dia
guerreiam com lágrimas de sempre-viva
e um poema de betume cobre suas raízes,
as expiações medem-se por catarzes de escarros
ou pedras ou cínicos jarros
que no-los perdoam e os mormaços
sentem-se mui-acossados
por ternuras de orquídeas.

IV
Poesia, oh! poesia...
Os poetas produzem ceras cada aurora,
suas carnes mal amarelam e decompõem-se em limo
e suas gavetas, seus limbos e seus semens
não amedrontam só os bêbados nas suas cervejarias
de palavras sem bíceps, estômagos, nádegas
que no-los perdoam e suas flechas
sentem-se descomedidas
a cada tosco entardecer.

© Benny Franklin

Foto: Maria Hernandez
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sexta-feira, outubro 03, 2008

Para confundir outros soluços!



I
Bocas de ausências
(pêlos das libidos que não procriam...)
resmungam que são submissas ferrugens
e se fodem deliberadamente
ao primeiro sorvo
e estão para a poeira
como a sovina covardia
está para o verbo
insosso...

II
O boldrié da condição humana
descora o poema e azeda
onde tristes barrigas emudecem,
deixam-se ser férteis apologias
de atrocidades que surram.

III
Não faz muito
choquei-me com a brisa do fim,
bruta já foge longínqua...
A prece-luz rapta o borne dos desejos,
e se mortifixa nas palavras viúvas:
lugar de origem
de corpos que purgam o sempre-belo.

IV
Saber-me ausência
(remorsos e vesgas-partidas daqueles que calam...)
desfigura meu íntimo,
enxágua o lodo-mofo dos olhares
e faz tremular lábaros ressequidos
por não sabê-los calvos...

V
Mas... A minha mão
- ávida de procuras –
pousará sobre a dura realidade do silêncio,
vingará a lágrima da meia noite
e inventará novos buracos negros
para confundir outros soluços.

© Benny Franklin

Foto: Maria Hernandez
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