domingo, setembro 24, 2006

Exame de Consciência


Prêmio AP de Literatura 2006

Para Gilberto Guimarães, Dedico.

I

Sob o signo da vida,
pedra quase bruta,
que me consome aos poucos,
copulam-me as bromélias silvestres,
remastigando o íntimo da palavra,
tão farta de cio.
Exame de consciência
que, à mercê das chuvas ácidas de longes terras,
quando se pode melhor divisar as coisas,
há que se fazer de espada,
mas sem dormir na bainha,
e, em meio às flores ensopadas de espermas,
deve saber devorar
centenas de ventres santarenos,
que tanto amo penetrá-los...
Ó areia de piracaia!...
Ó tira-gosto de avium!...
Que a chuva me conceda
uma primeira negação da fala.
Sentar-me-ei nestas calçadas baldias da vida
a colher da viva luz,
o que possível se amarelar nos frutos desmerecidos
desse amor que amo amar em pedaços...
Ó chão belemita!...
Ó grão paraora!...
Que os filamentos de tuas belíssimas pétalas
e de teus pusilânimes ovários,
conceda-me o dom de perfurar-te à bala,
com orgasmo de aço,
no qual algumas putas infelizes
prostram-se nas noites de sofreguidão.
Porquanto, bem sabe o sol que me queima n’alma,
que não chorarei o deslacrar-se
dos hímens complacentes das orquídeas selvagens.
Muito menos apagarei da sorte todas as imagens
que, porventura, se despirem nos vidros
da minha parca inspiração,
cuja flor-mulher que tanto amo mastigar,
não venha se sentir penetrada
por feitos desumanos.

II

Ó tímidas meretrizes!...
Ó cascas de mangas pecas!...
De que adianta
o brilho inusitado dos folkways amazônicos
se seu povo convive com a fome,
deixando marcas de sangue
em farpadas cercas estrangeiras?
Ó supina felicidade!...
Ó punhos de renda!...
Por que permitir
que o anda-já de garras e paixões
se liquefaça carcomido sob as derradeiras
volúpias do escrever?
Ó Alter-do-Chão!...
Ó amor perfeito!...
Por que permitir que os cânticos dos poetas
se derretam, indevidos,
no âmbito copular dos cachos de bananas nanicas
nos quais mocorongas moçoilas desvirginadas,
continuamente, se deixam penetrar
pelos gulosos talos do Benjamizeiro?...
Por despeito
de não compreender o medo de amar,
sou como a consciência das pedras solitárias,
que ouve no bocejar da fome,
o lamento dos tambores.
E, como guardiã da palavra, que é
fruto da vivencia diária do borbotar das emoções,
a labareda da fala
há que se afugentar dos maus poetas.
Mas, sem perpassar o chão da poesia,
a fim que se lance gozosa,
até às profundezas do empoeirado
oceano de lágrimas.

III

Vinde,
irmãos do sol e irmãs da lua.
Sentai comigo...
tentarei ser toda paciência
para entortar o aço da palavra
e todas as dores e espinhos
que prendem o reinventar do ser humano.
Vinde,
primos do sol e primos da lua.
Sentai comigo...
porque o amor inconsciente e inválido,
há que ser compelido a envenenar-me de véspera,
atrelando-me ao cortar da baioneta tibetana,
impelindo-me imensos flocos de almas famintas,
num espocar de corpos,
calafrios e desânimo,
que é este colar de madrepérolas,
conquistado às duras lágrimas talhadas,
ante o chicote coercivo
Da madrugada...
Aprendei também
que há egoísmo se o sexo for mal parido,
já que o meu prepúcio raivoso, sentindo fome de mel silvestre,
decerto, gozar-se-á a pleno gozo,
desdizendo do amor das enxurradas tsunâmicas,
do qual, o atritar com as palavras mórbidas e secas,
decaí indecoroso por cima desta vida ainda menina,
que ora sangra-se estricnina...
Ó luar de prata!...
Ó dia de cão!....
sabei que sou como o aroma do canivete.
E, assim sendo, apenas varão,
logo me ato em lânguidos cânticos de vida e corte,
na idéia firme de vencer a morte.
Rastro de fuzil americano
a lançar-me à alça de mira
do soldado judeu, que há que se enrolar
sob o véu da ferida,
cujo front dos gozares belemitas,
liga-se energizado às batalhas sangrentas deste poema,
ora abatido ora menstruado,
ponto de escape
que vai da saliência dos homens-poetas
até o alimentar-se de retretas,
barro e saliva!

IV

Nesse infinito augurar de palavras e tetas
Talvez, hoje, talvez, nunca mais,
a fomedez de justiça e cabaço
aceite se impregnar ao ardume e à canseira.
Nunca mais aceite descoçar-se das impinges e coceiras.
Nunca mais aceite induzir os pássaros de aço
a remover do olfato da maçã a ganância humana.
Nunca mais aceite engolir o desamor
que brota dos homens exatos,
nos quais o silêncio da vida,
a miséria do osso, não explica...
De vez que o amor,
emprenhado de dúvidas e ressentimentos,
deixou-se masturbar de tédio,
esguichando seu ávido sexo
em cima do Coreto da Praça da República,
Convexa, crua, ensolarada,
Pálida,
andrógina poesia nua!

V

Neste Sistema Solar,
que move a vergonha dos homens,
resta-me o som das palavras,
golpeando-se com pedaços de flores,
dizendo-me que é com o tesão do meu sexo
que se desamargura da dor imerecida...
Não faz muito,
pariu-se o sol sob o cio da terra...
Fosse-me esse cio réstia de luz
que se espraia pelo vento da praia.
Fosse-me essa fome européia
nunca vista na primavera.
Eu pintaria um breve espaço
entre o pensamento
e a ação...
Sabei,
ó Sumaumeira de Nazaré!...
Satisfaço-me, espiritualmente, quando bebo sexo
e, também, quando me alimento
de poesia sem eternidade,
pois, que como sêmen de limão
(enjoativo e transgênico),
O dia que amo anoitecer,
há que se tornar sonho pejorativo,
cartazia de agonia,
ato de expiação,
espada que fere o mundo,
num gesto que gera-nos
somente dor
e aflição!

VI

Da paixão
(bem sabe o dia!... à noite também!),
provém-me o verbo da paixão que tanto degelo,
quando deixo enforcar-me pela ferida do cotovelo,
pois, o desejo de não me curar,
há que se suicidar no ventre da poesia,
feito mel
de mênstruo copular silvestre,
feito essa desmedida dor
que cobre a Cidade de Belém...
Sim!
colherei essa paixão
que há de cobrir de castigo,
as pencas de mangas verdes penetradas
que estão caídas no ato
de espreitar o orvalho da manhã...
Sim!
não pensarei não nessa mansidão
que está às avessas,
da minha timidez mal parida,
cujo âmago que emperra este poema iletrado,
Quererá ser um verdadeiro mangal
carregado de frutos e sentimentos.
Pensarei sim, naquela que gerar, pela orquídea selvagem,
uma declaração de amor,
que imerecido ofereço a esta tarde rediviva
de tragos não explícitos,
mas que se morrem diariamente de tétano,
quando a flor se apodrece merecida
no íntimo da chuva.

VII

Lá muito longe,
os nossos mortos/vivos
caminham apressados para o tempo da eternidade.
Zombam-nos!... E pedem-nos socorro!...
Também implora-nos restos de comidas!...
Pois, que estando eles
prostrados à frente do purgatório do verbo,
não há como a ferrugem vomitar prisões e palavras
no clitóris da fala...,
pois, que estando eles
prostrados à frente do hímen da gala,
não há como a solidão
costurar o pênis deste esbaforido poema,
no qual as explícitas volúpias penitentes
e o fogo da ânsia de viver
não ousa destruí-los.

VIII

Não!
Não dormirei sob o ridículo da fala...
Vinde... Sou poeta...
Condenado que estou a tornar-me pateta
e a ficar preso por cem dias
no colo da solidão dos náufragos,
descomendo pão,
desbebendo água,
condenado a suportar
cem chibatadas nas costas.
Condenado a maldizer
os paus-de-arara da agonia,
de onde amorosas alfinetadas
meu poema sujo
gala o ar,
fere o céu,
pressentido a morte do aurorar amazônico.
Qual anjo torto traindo a manhã,
dessas coisas não muito raras e plurais,
vez que há lá fora
mundos inteiros
enforcando-se de fome e desmando.
Há, lá fora, bocas e estrumes,
paus e bandeiras de poetas sórdidos,
construindo pencas de poemas corruptos,
apáticos, desprezíveis,
tal como os seres inferiores,
vis.

IX

Talvez já nem mais sejas...
Estejas... Só... Vegetas...
Teimoso rendez-vous da palavra
que te mormaça os dias,
tão despedaçados de angústia,
tão mais carente de flor socialista.
Talvez já nem mais sejas...
Sobrevivas... Só... Vomitas.
Miseráveis casebres,
cujas feições multifacetadas da carne de anta
morrem no âmago do vôo do inseto,
vestido de barba e farda de general
a fuzilar em riste,
padres e sacristias,
Pois, as nossas amarguras
são como os gomos da laranja,
tombados bêbados de fome
como tombados estão os nossos poetas paroaras,
que não podem escarrar seus gozarares e urros
no cancro da cidade...

X

Nessa assexuada manhã de inverno
sou como uma fumaça lenta,
vagando sem rumo...
E, como lenta fumaça que passa,
não hei de catar na palavra
Somente o que há no espaço lúcido do nada.
Também não engolirei réstia de luz,
muito menos hei de coar o fel do cansaço,
ou amordaçar-me na inércia
de morrer ante a morbidez do mormaço,
já que desde menino
eu me afasto do amargo da poesia,
em cujo sangramento
este poema sujo,
presta-se a negritar-se no asfalto...,
Pois, quando a noite se puser,
que eu possa preparar a massa de pastel de amianto.
Que eu possa fritá-lo em óleo de soja saturado,
que eu possa despencar-me às nádegas do planeta,
que eu possa ser o amor das margaridas despetaladas,
em cuja dor de cólera e sanguessuga
a vida põe-se a moer
O saracotear-se dos ratos d’água
Que, diariamente, assexuam-se entre si
ante a bulimia fecal
dos nossos sobressaltos.

XI

Contemplando as estrelas mastigadas,
teimo em dizer-te
que eu não beberei o teu repreender.
Que eu não andarei de carro de mão,
porque içado à descarga do vento,
repararei o rascunhar dalguns parcos poemas,
aos quais, por ironia do talonário bancário,
fez-me permanecer encaixado
aos calotes da vida.
Porque sou como as folhas do ipêzeiro,
que lutam para não cair no abismo da sorte
E, mesmo sendo resto de encanto e magia,
sou como a face da lua,
desfazendo-se dessa falta de ar
que reina sob a vida sul-americana...,
sobretudo, porque
cabe á morte execrar o brocardo popular,
quando diz que a lamina poética da fala
infecta-se na lama da gala
e, que de tanto sofrer,
mostra-se depauperada por falta de amor e meiguice.
Ou, mais que isso,
vale viver a vida,
na qual uma mira de revólver explode-se ao vento,
já que se oferece como águia de fogo e fome,
já que se oferece como um anelar-se sem nome,
de céu insosso e cinzento
a miar-nos restos de pão e justiça.

XII

Vinde,
irmãos do sol e primos da lua.
Sentai comigo...
Escutai...
Não fosse a tosse da vagina,
nenhum revés meu íntimo alcançaria,
porque vivo como palito nu
que, em prantos, fere o dente,
e, mastigando a vida,
se gala de espanto,
num encanto que engorda o bolso vazio da vertigem,
desbanca a bainha verde da sorte,
às do nada sem nada,
que asperamente espero
Descolar-me da cicuta da morte,
poetando calado,
um átomo acalanto...
Lá fora,
a noite tenta achegar-se a mim
como um coito vaginal
que se achega na exploração sexual do sereno.
Lá fora,
a noite tenta se esconder em mim
como um monte de estômagos ressequidos
que se esconde em copos de leite e cigarro,
tal como os urros e sussurros das meretrizes
do Bar do Parque,
pedindo-me paga!

XIII

Vinde,
filhos do sol e cunhados da lua.
Sentai comigo...
Escutai...
Não fugirei da coragem,
muito menos fugirei do poema
que me despreza,
pois, que como mediano poeta,
sou mata virgem que cobre a vida.
Sou como uma simples explosão
provinda do sobrecu da palavra.
Sou como o medo da existência,
daquele que vê o abismo desprezando a corda.
Daquele que caça a herança rebentando elos perdidos,
cuja dor que vive repleta de falos semi-eretos,
costuma sempre catar nos dedos das prostitutas
as migalhas da poesia...
Sou, por fim,
sou como
as manhãs sem orvalho,
que tristes caminham sem burburinho.
Sou como
as lâminas de barro
que, afoitas, não vertem lágrimas,
transcendem do coito,
a sinceridade do gozo,
o chão!

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quarta-feira, setembro 06, 2006

Crisântemos de carne



Crisântemos de carne,
Textura dos testículos peniando cristais de céu
- Colhendo Deuses.

De osso em osso
Alimentam “On Line”
Os ostensórios de línguas
Em cemitérios com calefação.

Subfomedez
“In service”
Sujeito às eloqüências subentendidas:
“Verum velle, parum est”.

De corvos a corvos
Não se arrancam os olhos,
Tal o zíper travado
Em suas lapelas metafísicas:

Subescórias
Do homem subalimentado
Subcontando surtos e subepidemias
Sumariamente subativas
No subconsciente
Calcinado...

Ai! Somos
Subdesenvolvidos inventos
De um artífice subserviente:
Subinovação iludida
Onde se festeja
A inércia e o halo dentro
Das cabeças,

A subindecência
É um furor de angústia,
Filé Mignone que não sobra,
Que nem mesmo
Com fome anima.



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Flores de underground



Minha genitália de vidro,
Bem afiada contive-a.
Mesmo assim penetrada em reverso,
Lodo desprezível,
No teu limite satânico,
Esfacela,
Estrangula, ruge, goza...

Calcula a seguir quão carcomida,
Entre as flôres de underground,
O mentecapto,
Circunspecto e chulo
Como um terminante!

Je pense
Que... Amarelou em Belém...
Os alfinetes mangueirícios?
Ah! Esses vêm em seguida,
Tal como contrai
A vaginália pêca,
O ângulo que mais lhe apraz...

Como as pistolas e as línguas de aço
Murmurando às colinas,
A condolência orgânica
Ininterruptamente
A se dar sob a mesma gozada...

Então... Corrimento alguma nos advirá
Que não a possa roer
Um rato britânico
Em jaz.

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terça-feira, setembro 05, 2006

Sob o betume do cais



Semblante entrincheirado,
Interstício da libélula em vôo de gozo.
Sob o queixo do poeta há o vazio,
Contextura do abismo
Imerso em superabundância.
O betume?
Sucede o cais inseminado.
Do alto
De sua altivez,
Brada um lamento:
Oh! Lã reprimida!
Oh! Pêndulo moroso!
Oh! Estrelário apagado!
....................
Prostrado
Em lânguida terra calcinada
O seixo gozado vegeta,
Réstia de luz a voar do corpo ao estômago;
Da subversão à fuga; do vazio
À pusilânime vontade,
Como se voasse a fugazes gametas
Refazendo-se do duo-castigo poetado...
De modo que sob a lucidez do cântaro ensopado,
Deixar-se-ia seduzir pelo álibi do orvalho;
Ou quando muito,
Apressar-se-ia a extinguir
Súbitas parábolas
Até restarem duas trêmulas feridas,
Como o barro e a nódoa,
Como o túmulo e os ecos marginais.
....................
- O Corpo?

Solstício da tabela estomacal periódica,
Cútis do ébano esvoaçando rosas penetradas...
Muito embora copulasse a pedra
No extremo do olhar,
Como que rebentasse ervas ressequidas,
Ah! É entre vazios metafísicos
Que a alma se dá
(Desembocando-se nas intermitentes palavras desditas),
Pois que ao sol queixar-se-á gozosa;
Seus ávidos gozares quais túmidas vertigens,
Emprenhar-se-ão de poemas
Feito malquista baldeação.
....................
- O cais?

Coisa abstrata não é
Nem concreto armado
Prende-se à penumbra orgânica dos porcos;
Sombras e ligames virgens
Não a ligam à piedade
Dos barcos à vela nem UFOS fantasmas
Desembocam-se de soslaio
Em bacias de gente,
Às costas da imaginação.
....................
- O pontilhão?

Esta é Belém,
Onde as raparigas gozam espetaculosas.
Este é Bar do Parque,
De Max e de Rui
Os mais amados.

Nota do Autor:
1 - Bar do Parque: Local de encontro de boêmios e intelectuais que, aos finais de semana incendeia de papeados, a cidade de Belém.
2 - Max Martins e Rui Barata: Dois importantes poetas paraenses.

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Domminus imaginarium



Atropelo
A morte e a morte
Do poema bruto porque doravante
Há que se derramar em lágrimas doutas,
Qual cotidiano gozar,
Ou como tutano fervido a limo e cerúmen
A asfixiar-se
Em qualquer acidez sem sal:
Feito esse célere álibi do mamãezar
Dos Icebergs erotizados
Tostando-se em sêmens arredios;
Domminus Imaginarium
Do Poema egocêntrico em pedaços...
..................

Com água e fogo,
Aniquilo a extenuação da metástase
Da palavra,
De forma que a entendo
Como flor-de-catraia rediviva,
Tal como entendo mortos
Os Vedas Ditosos e seus Sânscritos Extratérreos,
Que percebem no Amor
O Cálice (In) Perfeito.
..................

Aos vinte e cinco,
Aprendi que os Essênios Gozosos,
Dominavam a técnica de fazer-amor-completo:
Louvavam a etílica vagina mastigando aurora,
Assim como desnudavam-na
Feito Vênus despida em franjas,
Porque adoravam-na como Deusa
Redondamente penetrada;
Mas desintegravam-na, lentamente,
Ao primeiro urro
Combalido...
..................

Água e fogo
É o suficiente, o intangível,
O muito de que precisamos?
Não. Carecemos de poesia.
Os Nobels da Escrita
Pregam que não lactar-se o organismo
Das letras é como não lamber o bico da mama;
É como não fugir a longes eternidades...
É como se fotografássemos criaturas da noite
Crendo em algo
Descrendo das vis evidências
Do não existir-se.
..................

Dizem más-línguas
Que crer e descrer
(Exceto o ato falho da algema inseminada...),
É chocar-se, é resistir-se...
É ousar proteger-se de algo tangível,
O não divino.
É despoetar-se as últimas seqüelas
De o Ser Poético porque Descartável.
Enquanto cá, em solo poético e
Sob a sala de estar do vazio,
Alguns restos de espermas vadios
Jazam pervertidos, negrejados;
Coagulam-se no tapete
Rompendo instantes.
..................

Crer (na lavra) e não descrer (da palavra)
— Suponho —,
É a possessão do fantasmático.
Provém do crepúsculo do vôo
(Mal cozido e destemido
Que a tudo cala, mas a tudo contamina...).
Antes:
Cri ser a palavra
Um movimento,
E não (re) nego a derme!
Hoje:
Desumedeço-a à tênue vertigem;
Douro-a em outra forma
Desprovida das antíteses solteiras...
Decerto, porque
Nela cri, sofri, e por sorte,
Nasci de ulterior vida
Feita de gomos
De vento.
..................

De soslaio,
À frente do tempo,
Os Gnomos de gozares inumanos,
Transferem-nos
As (in) precisões de dosar à força
A falsa noção
De que não podemos equivaler
À Perfeição da Palavra...
Não fosse a lucidez do mormaço,
À imaginação caberia o logro:
Proeza e álibi do pranto
Que merece ser idealizado e (re) talhado
À luz da contextura
Orgâmica.
..................

Aí... Sofro e sofro,
Porque símile à verdade,
Nós, Poetas de membros engessados,
“Somos como obras inacabadas e complexas”...
Como desconexas
São as lágrimas e as dores imperfeitas.
Sutis artífices
Das esfinges caçoadas
Que jazem
Sob os transes vespertinos
Do olhar...
Cujo artilharia põe-se a nos arquivar
Da podridão dos soberbos idiotas,
À medida que o tal canivete enfiado ao chão
Grela vísceras e espermatozóides medianos
Que, apesar dos pesares,
Ama a silhueta e fode a poesia;
Assim como o húmus do orgasmo
Desvirgina a paixão!

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De toda compreênsão


Decodificar o mistério do poeta
É suprimir fomes
Desumanas do não
Partilhar a dor
O chão
O pão
A solidão
Desvendar as dores do poeta
Não é solução desmedida
De quem sabe o destino
O lascivo enigma da mão
A lavra maior é repartir
A aflição
A utopia
Hálito dos inaudíveis
Os bálsamos
Os sonhos forças armadas
Confinar nos vincos
Lendas e destinos repartidos
Repartir o poema é expor
O gozo da oração
A crase que nos reversos
Não se pode decifrar
Que nos insultados é morbidez de cão
Repartir o poema é querer
Silenciar a agonia por mais dolorida
Que seja
É ter no poema a coragem
E ter força
Jura de rima
Como uma fé
Renascida

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Fomedez do orvalho



1 – Se, da palavra,
Gala-se o verbo.
Que se apresse o vento
A matar-me de poesia e jardim.
Cujas flores multifacetadas desta angustia,
Que teima em ferir-me,
Recolhesse sobras de asteróides amazônicos
E fossem milhares de néctares
Esparramados sobre mim:
Eu não seria esta infinitésima parte
Da paixão do Cedro Rosa
Anecrosada de amor
A desfilar sob o estomago vazio da palavra,
O rebojo das traças.
Mas, se a palavra me lançar à fúria
Quem ousará copular meu pênis
Masturbando-os de prazer e cansaço?
Quando restar-me-á a languidez da Hóstia
Untada à fritada de óleo de Ema?
Tivesse a vida por fim
Me lançado à ferrugem e ao cansaço
Que se gozasse infinitamente
Sobre a aurora da vida
Chama e vertigem da fala
Pudesse (a palavra) bebido
Esse gozar perfumado do jasmineiro
Infectado de êxtase
E fosse talvez como a solidão da noite
Cujo degelo da pálida fomedez do orvalho
Ardesse seu infinitésimo penetrar
Sob a saliência da faca,
Ou tivesse a fala
Sido como eu
Anjo rebelde caído
Poeta desfalecido
Postulando à noite
A salvação das espécies
Solvendo veneno
Morrendo poeta.

2 - Decodificar o mistério do poeta
(De toda compreensão...)
Soa como fosse arte de suprimir fomes
Desumanas do não.
Partilhar a dor
O chão. O pão. A solidão...
Desvendar as dores do poeta,
Não é solução desmedida
De quem sabe o destino:
O lascivo enigma da mão.
A lavra maior é repartir
A aflição, a utopia.
Hálito dos inaudíveis bálsamos,
Sonhos das forças armadas
A confinar nos vincos
As lendas e destinos repartidos.
Repartir o poema é expor
O gozo da oração,
A crase que os reversos
Não se podem decifrar...
mas que nos insultados é morbidez de cão
A repartir o poema,
A silenciar a agonia por mais dolorida
Que seja.
É ter no poema a coragem
E a força
De exorcizar a rima
Como uma fé
Renascida.

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A mulher e a ilha



Ela é mar,
E suas ondas vão além
Do cheiro de churrasco de lágrima,
Que o próprio cio de fêmea espada
Despontou a talhá-la
Sob os moldes eróticos
De especioso comer.

Ela é ilha,
E suas terras vão além
Do beiço de comprido tentáculo,
Que o ferrão de fêmeo mandií
Despontou a penetrá-la
Sob os louros gozosos
De meloso beber.

Ela é mulher
- E daí?
Eu,
A sua ilha.
Nossos enigmas não se decifram
E nem podem moldar
O ferro e o fogo.

Eu e ela
- E daí?
Não somos somente
Mulher e ilha,
Ilha e mulher,
Senão o aço do gozo
A saliva no pescoço,
A vara e o cabide,
A cela e o cavalo
— O dorso!

Eu e a mulher
- E daí?
A ilha e eu,
Ou a mulher e a ilha
- Tanto faz!

Vale a pergunta:

Quem dos dois
deverá submeter-se à vontade da taça
tendo que estancar o gôzo da fuga?
Quem dos dois
deverá submeter-se à anorexia da bílis
tendo que retorcer
o elástico do bíceps?

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Metamorfose das libélulas



Soletrar amor
Não significa afogar-me em baldes
De lágrimas multifacetadas.
Não significa rever-me no revés da flor
E nem significa atar-me ao viés
Das borboletas desbucetadas,
Tristes, inócuas sem sal!
Porquanto ao receberem afeto e carinho,
Hão de sê-las (um dia) todas poetadas,
Senão penetradas...

E suas lágrimas ser-nos-ão
Como as estrêlas no céu.
.........................

Soletrar amor
Não significa enxugar-me em bacias
De paixões decapitadas.
Não significa escâncarar-me ao frio e a dor
E nem significa glorificar-se pelas unhas dos pés,
E dos queixumes multidecepados,
Frouxos alienados sem açúcar!
Porquanto ao vomitarem afeto e carinho,
Hão de sê-las (um dia) todas poetadas,
Senão penetradas...

E suas lágrimas ser-nos-ão
Como as estrêlas no céu.
.........................

Soletrar amor
Significa armar-me de frases e palavras
E depois jogá-las ao vento;
Ao precipício da garganta.
Significa recolher-me ao vicio que encanta;
Que é como que mordesse o ato de amar
E admir o amor das libélulas
Que, ao fim do gozo,
Por respeito aos seus vassalos,
Decapitarão e devorarão seus possuidores,
Por respeito ao tronco de quem os gala...

E suas lágrimas ser-nos-ão
Como as estrelas no céu.


Foto: Armando Falcão
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